sim

poesia (livro). contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba, 2019.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”
Clarice Lispector

Primeira Onda

Sou nascida do sim
que é som e matéria mole.

Não somos a soma e sim: silêncio
é o que sobra quando se morre.

Um dia estará silêncio
ou serei eu que estarei surda?

Para Lóri

Baixa temperatura
prata pedra de sal
salgado e áspero beijo.

Era cedo
não havia ninguém
o mar todo dela.
Mergulho no abismo
braçadas no vento
vulgar e limpa espuma.
Um novo lugar
antigo desejo.

Nadou o risco
a dor
o medo da morte.
Calculado desperdício
agora entregue ao infinito.

Uma escultora que tateia no escuro o corpo
de palavras arranhadas.
Quando se apanha uma dela nas mãos, um milagre:
cuidadoso passeio por entre as bochechas, lábios sorrindo, um novo ato:
delicada joia que se arremessa à selva de línguas.

O olho nada vê de si mesmo.
Eis o resumo do mistério
tão poderoso porque impossível.

Intransponível

Na fria floresta de dentro
escuto a batida seca do coração.

Um passo, depois o outro
até chegar à outra beirada.

A grande boca que come o mundo
tem todos os dentes porosos
se abre e fecha quando toca
a beirada das coisas.

Uma linha fina e implacável
emaranha em espiral
o desencadear dos fatos.

Relógio que volta no tempo.
O retrato na parede
do homem que nunca foi.
Natureza em plena exatidão
completo caos.

Para vô Guaracy
Tentativa 1

O ardido alarme soa no lugar do sono.
O pé se coloca em cheio no chão gelado que dói. É hora de levantar.
Qual o sentido de tudo, ele se pergunta enquanto esfrega as mãos em automático movimento.
O café vai passando na cozinha, pão comprado, jornal em cima da mesa. Horas suspensas antes de o dia começar.
Cheiro denso de tudo
o que se guardou do dia anterior ao fechar as janelas.
Ele hoje é um avô e o peso que carrega sorrindo.
Café tomado, a mesa ainda posta, hora de fazer coisa nenhuma.
No fundo da casa um grande quarto que agora recobra a vida que ficou em suspenso durante os trinta anos de lida.
Na mesa, papéis, violão pendurado na parede, instrumento de fé.
Ele é um forte mas acima de tudo humano, portanto, um fraco.
Choro incontido, lágrima que não se segura.
Vida que brota por entre os dedos no braço do violão.
Só um fraco ousaria desafiar a natureza e brincar.
Se agigantar perante o gigante
até poder rir da própria morte.

Para vô Guaracy
Tentativa 2

Um senhor que carrega o tempo na sacola de pão.
Anda ligeiro sabendo do próprio destino.
Agora é capaz de brincar como brinca um velho.

Ele sabe:
o tempo não se amarra em árvore
se mistura e se banha em vertigem de luz de sol no caminho entre a padaria e a casa.

Ele sabe:
a vida física lhe escorre
enquanto a alma brinca e ri na cara da morte.

Bocas mentem
a menos que mudas.

Segunda Onda

Aqui. Onde choro, onde chovo.
Bebo da própria água represada já que agora
jorro
espirro
derramo
inundo.

A própria comida que enche a barriga
ingrata e violenta
me cospe na cara ao final.

Danço para me recompor.
Meu corpo por vezes amorfo
nunca apático.

Quero o seu e o meu misturados e postos na rua
luz laranja que ilumina e queima.
Sua boca que diz não e me apedreja.

Amanheço e me encho de força
posta em repouso horas anteriores.
O que é a força senão o peso que posso carregar nos braços?

É hora de fincar os pés na terra e ser árvore
poder beber do solo e da luz solar
espaço entre – tudo agora. sigo e sigo e sigo.

Se não me levanto rastejo como raiz de árvore e me alimento em baixo movimento.

Tinha manchas do ontem porque antigos movimentos na memória.
Tinha também as ruas debaixo dos pés que andam porque pouco sabia e queria saber ainda menos de tudo e mais de si.
Sem saber o peso da lembrança é que se tateia para achar os rastros de velhos fantasmas – que pesam e prendem…

Tinha brilho
tinha a costura pra fechar o mar aberto
tinha as pedras
tinha a água.

Caminhar e caminhar
eis agora o meu destino.
Até que as pernas se dobrem no derradeiro dia.
Até que a retina seque e canse.

Tinha o pó e a poeira e a pedra e a água.
Era isso e mais nada.

Um dia será isso de novo.
Será matéria de novo.
Será mole e violento de novo.
Para ser comido e regurgitado
velho movimento de ruminar a existência.

Estarei eu de novo
dentro e entre vocês de novo
até formar a novidade do primeiro dia.

Sim e sim
eis o início de tudo.
No improviso fez deus toda a matéria
para jorrar em som e matéria mole: água.

No dia escolhido seremos:
sim e sal e silêncio.
Nos moveremos em ondas
sublimes e violentas.

Não há que se perguntar porquês.
Sabemos de nós apenas o próprio corpo
que jorra salgado em
suor e sangue e choro.

Dê água para existir
dê pó para retornar
raiz e terra para fincar os pés
árvore que vive de solo e sol.

Se crio pontes não deixo de mirar o abismo.
Se nos tocamos jamais nos fundimos.

Fito seu olho encharcado
faço e refaço o caminho que é só de ida
feito ferida aberta, ardo.

Se canto vejo e jorro no agora
gota que cai pelas costas
e já passou.

Daqui dá pra ver o mistério
não dá pra tocar
com a ponta dos dedos.

Há que se queimar por completo
beijar a face do sol
em carne viva retornar:
início não há.

Quando é dia cedo
os gatos de Nakata ainda reinam
também assim é o mar de Lóri
onde poucos navegaram
porque o dia se refez agora.

Terminou
e o fim se fez no sonho
território antigo e poderoso
de onde se mira algum mistério.
Foi assim como constatar
ou
atestar ato consumado.

Se me viro não te vejo
assim caminho e não carrego bagagem
além de minhas próprias pernas
e alma que insiste em jorrar os sins
—-aguar em outros rios.

Prata pedra que é sal
matéria mole: água
composto de um corpo emprestado.
Meu único dever: jorrar e secar
em movimento que é ciclo.

Se digo sim também é não.
Se crio ponte não deixo de mirar o abismo.

Você diz entregue os pontos
relaxe os ombros
respire com o corpo
é tudo o que tenho pra você.

Em sonho termino
retorno mas não há início.
refação em ruminante movimento
que é sim e ciclo e sal e água em círculo.

Um dia a onda
Um dia o mar aberto
Um dia o sal dissolvido no mole
Um dia a água
Um dia a matéria do sim.
Um dia o ponto
Um dia o fim
Um dia mais nada
Um dia tudo de novo.

O fim da febre é a água
sal e mole
sinal de passada doença
dança de gota que caminha
e no fim do corpo, pinga.

É sal é soro
que banha e dança
e no fim do corpo, pinga.

Onda que passa
de um ente a outro
caminha, dança
e no fim do corpo, pinga.

O fim é isso mesmo que acaba no corpo
e vira matéria de pensamento.

Acrescento, porém:
não pense que não pensa o corpo.
Fala a língua das línguas e da dança
do choro e do sal da lágrima.

O que é o morrer senão o pingo salgado
que pinga e cai do corpo
e um dia seca e não pinga mais?

eu sei que tudo morre, que tudo acaba
que a morte faz um risco na retina
como a faca de buñuel
e os olhos se regeneram
mas o trauma do corte refaz seu movimento
num eco fantasma*

*Luiza Lian, em Oyá Tempo

Aqui
quando ainda era antes
preparo a casa.

Ele do alto da janela
eu aqui sentada:
foi exatamente onde
ele se viu maior.

Guardou palavra que é pedra
para a derradeira hora.
Pedra que é dura e pesa
fome da ferida aberta em corpo alheio.

Enche o copo e a cara
me dá de beber.

O que ele não sabe
é que não ando só.
Sou fera e felina
me esquivo em moles movimentos:
sou água.

O que não dissolve, passa
transparente movimento: transpassa.
Vira curso, vira rio.
Era não, já é sim de novo.