carne

poesia (zine). publicação independente, 2019.

“a poesia é uma lição com a carne”.
Rubem Alves

meu corpo anda parado
salta em queda livre
sentado

dia que cai é até milagre
pele rasgada e sangue que é água
guardada

dia que enche por dentro
pinga no olho
direito
até que encontra a mão que veio
correndo
dar jeito

se pinga
pinga escondido
não revela origem
nem destino
morre antes na mão que limpa a cara
amassada

pra falar do meu corpo
ele fica sentado
tento lhe dar movimento
escolho a máquina
e bato pesado

palavra cai como água de cachoeira
a queda é vertical
escorrega na seiva do real
até encontrar ponta dos pés em pedra
firme

assim é meu salto
arremesso de joia na selva de palavras

meu corpo mudo
fala
meu corpo duro
mente

som preso no silêncio
à espreita do salto inicial
libertar da casca
liso ovo que lhe abriga

quando dentro:
vida em potência
desejo liso do primeiro salto

quando fora:
selva implacável
presa fácil do primeiro abraço

o cheiro
é de manga e café
a água
é gelada e vertical
banha em pingos
espaçados e
contínuos

cada centímetro de chão
já contou uma história
de caramujo, pedra e folha

cada balanço das horas
já abrigou
o som que hoje vibra
até saltas da lisa casca

o acesso é horizontal
rasteja em baixo movimento
de raiz de árvore

a devoção é silenciosa
até desembocar no som
da chuva ou da corda de um violão

o paraíso é inegociável
só chega àquele que não esperou
como foi ao zé da pinga
que detrás do seu tonel
quase não enxergou o milagre

dos elementos a água
a espera
o cheiro de manga
e do café que passa
dos barulhos o galo
a folha
o salto na água
e as cordas de um violão

das imagens a árvore
o céu no alto
a ave
e o vento que sopra tudo

quisera eu
que por algum milagre
tudo venha a pertencer
a uma única coisa
que soa nos intervalos

entre almoço café e janta
entre o sono e o descanso
entre o despertar e o levantar
entre o som e o silêncio

o paraíso é a cana
fervida
com melado e cana

toque firme a sirene
e logo venho te atender

mais duzentos metros e
um cachorro
guardião da estrada
da pinga e do delírio

zé da pinga:
quase mil litros no tonel
eis a sua devoção

tudo o que toco já leva um nome
carrega o peso da palavra
nascida morta